O juro americano chegou onde não chegava desde 2007
O juro de 10 anos dos Estados Unidos bateu 5,10%, o maior nível em dezenove anos, e derrubou a bolsa de Nova York; o petróleo voltou a subir quase 4% e desmentiu a calma de ontem; OpenAI, Anthropic e Google resolveram criar um órgão para fiscalizar a própria indústria; o Itamaraty alertou que chamar facção de terrorista abre porta para tropa estrangeira; e a cúpula entre Trump e Xi terminou com um prazo estendido e pouco mais.
Bom dia. Ontem eu escrevi aqui que o petróleo caía pelo sexto dia seguido. Hoje ele subiu quase 4% e levou o juro americano para o maior nível em dezenove anos. Começo por aí, porque é o que mexe no seu bolso hoje.
O dólar (e o resto do mercado)

O juro do Treasury de 10 anos, que é o preço do dinheiro no mundo, subiu 13 pontos de uma vez e fechou em 5,10%. Não estava nesse nível desde julho de 2007. O de 5 anos encostou em 5% pela primeira vez desde então.
Quatro coisas empurraram junto: a atividade econômica americana veio no ritmo mais forte desde julho de 2021, o custo dos insumos subiu no ritmo mais forte em quatro anos, um dirigente do Fed falou grosso, e o leilão de títulos de 5 anos teve demanda fraca.
Quando o governo americano precisa pagar mais para tomar emprestado, todo mundo paga mais. Inclusive você, que não emprestou nada a ninguém.
Nova York sentiu na hora. A Nasdaq caiu 1,13% e fechou em 26.936. O S&P perdeu 0,75%, aos 7.706. O Dow caiu 352 pontos. Hoje os futuros continuam negativos: Nasdaq-100 recua 1%.
E o petróleo virou. O Brent subiu 3,86% e fechou a US$ 103,08. O americano subiu 1,81%, a US$ 92,16. A guerra entre Estados Unidos e Irã continua, e o mercado voltou a precificar isso.
Ontem a conversa de três horas na ONU derrubou o petróleo. Hoje ele subiu de volta. Três horas de conversa valem menos que um dia de guerra.
No Brasil, o Ibovespa fechou ontem em queda de 0,86%, aos 185.814 pontos, e o dólar subiu 1,28%, a R$ 5,167. Hoje o dólar abriu a R$ 5,180 e o Ibovespa futuro cai 0,25%. E o Banco Central cortou a projeção de crescimento do país em 2026 para 1,8% no Relatório de Política Monetária.
O que a IA aprontou

OpenAI, Anthropic e Google estão montando juntas um órgão para testar os modelos de IA mais poderosos antes de eles chegarem ao público. A ideia partiu do Demis Hassabis, do Google DeepMind, e o modelo é a FINRA, a entidade que fiscaliza o mercado financeiro americano por dentro. O dinheiro sairia da própria indústria.
Três empresas que brigam entre si resolveram contratar o próprio fiscal. Chama-se autorregulação quando dá certo, e outra coisa quando não dá.
No mesmo movimento, as duas maiores baixaram o preço. A OpenAI lançou o GPT-6 Sol e o GPT-6 Luna, com a API metade do preço da geração anterior, e a Anthropic lançou o Claude Opus 5.5. Modelo bom ficando barato é a notícia que interessa a quem usa, não a quem investe.
E tem um pedaço brasileiro nisso. O Lula levantou suspeita de uso de inteligência artificial para influenciar a eleição de outubro. Não vi prova apresentada até agora. Fica o registro de que a acusação foi feita, não de que ela procede.
Brasil e Estados Unidos

Voltando ao assunto de ontem, e com a parte que faltava. O Itamaraty se posicionou sobre as sanções do Escudo das Américas ao PCC e ao Comando Vermelho, e o argumento não é o que parece.
O governo brasileiro diz que as duas são organizações criminosas voltadas ao lucro pelo tráfico, e não grupos com motivação ideológica. O alerta principal é outro: a classificação como terrorista pode abrir espaço para atuação americana mais ampla na América Latina. Traduzindo, tropa estrangeira em solo brasileiro.
Na ONU, o Lula disse que o Brasil não vai "terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo".
Ontem a leitura era que o Brasil tinha ficado de fora da lista. Hoje dá para dizer melhor: o Brasil escolheu ficar de fora, e explicou o porquê.
Separado disso, o Departamento de Estado americano deu entrevista à CNN Brasil dizendo que interferir em eleição de outro país não faz parte da estratégia americana, que Washington quer uma disputa "livre e transparente" e que trabalhará com qualquer governo que os brasileiros escolherem. O primeiro turno é daqui a dez dias.
Se você está pensando em mudar

Uma armadilha burocrática que está pegando gente esta semana, e ela é cara.
O USCIS trocou a edição de três formulários. O I-765, de autorização de trabalho, e o I-539, de mudança ou extensão de status, mudaram no dia 15 de setembro. O I-485, o pedido de green card por ajuste de status, mudou no dia 18.
Quem enviar a versão antiga a partir dessas datas tem o pedido rejeitado. Não há período de tolerância.
E rejeitado não é corrigido depois. É refazer o processo do zero, com taxa nova.
Confira a data da edição no rodapé do formulário antes de enviar qualquer coisa, e baixe sempre direto do uscis.gov. Eu conto a regra publicada, não oriento o seu caso.
O que está bombando

Acabou a cúpula entre Trump e Xi Jinping na Casa Branca, a primeira visita de Estado de um presidente chinês em mais de dez anos. O resultado concreto cabe em uma linha: a trégua comercial entre os dois países foi estendida até 10 de janeiro, em vez de vencer em novembro.
E o anúncio nem saiu da reunião. Saiu antes dela, pelo secretário do Tesouro, numa entrevista de televisão, depois de um encontro não programado com o vice-premiê chinês.
Ficaram sem acordo o pacote de armas para Taiwan, de 14 bilhões de dólares, os investimentos chineses nos Estados Unidos e o plano comercial. Sobre inteligência artificial, os americanos propuseram trocar alertas de segurança sobre incidentes, e a proposta ficou em proposta.
Tapete vermelho, banda, jantar e uma prorrogação de dois meses. Já vi condomínio resolver mais em reunião de quinze minutos.
Boa quinta. Ontem eu disse que hoje a gente veria o preço do tapete. O preço saiu: dois meses.
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O Brasil e os Estados Unidos vistos por quem mora fora. IA, mercado americano e o que a distância deixa ver. Sem enrolação e sem vender curso no meio do texto.
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