O diesel de outubro depende de uma canetada americana
O dólar abriu em queda e virou para cima depois que a prévia da inflação veio acima do esperado, puxada pela conta de luz, e o juro americano bateu o terceiro recorde seguido; os chefes da OpenAI e da Anthropic pediram regulação na ONU e o governo americano recusou; 80% do diesel que o Brasil encomendou para outubro vem daqui, e a Casa Branca estuda proibir a exportação; o H-1B ganhou duas taxas de cem mil dólares, uma suspensa e outra em proposta; e a Seleção empatou com a Austrália, o Mercado Livre começou a vender remédio e o Starbucks fecha 250 lojas.
Bom dia. Hoje a inflação veio acima do esperado, o diesel de outubro está na mão da Casa Branca e a Seleção empatou com a Austrália às sete da manhã. Nessa ordem de gravidade. No grupo da família, a ordem é a inversa.
Escrita às 9h27 de Nova York. Números de mercado reconferidos às 12h40.
O dólar (e o resto do mercado)

O dólar abriu hoje a R$ 5,176, em queda de 0,30%, e virou. Perto do meio-dia estava em R$ 5,19, alta de 0,41%, com a máxima renovada às 11h23. Ontem ele tinha fechado a R$ 5,193, alta de 0,47%, e chegou a bater R$ 5,202 no meio do dia. O Banco Central teve que vender 1 bilhão de dólares em leilão para acalmar.
Abriu caindo e almoçou subindo. Quem olhou o dólar só às nove viu o filme errado.
O dia começou mais calmo: o petróleo recua com a notícia de que Estados Unidos e Irã estudam um acordo em etapas para reabrir o Estreito de Ormuz.
Mas às 9h de Brasília saiu o IPCA-15, a prévia da inflação. Subiu 0,70% em setembro. O mercado esperava 0,53%. Em doze meses, 4,47%.
Quem puxou foi habitação, com alta de 2,07%, por causa da conta de luz. E os outros oito grupos foram atrás. Nove de nove.
Nem time de várzea tem esse aproveitamento.
O Ibovespa fechou ontem em queda de 0,99%, aos 183.965 pontos, com bancos e Vale no vermelho. Hoje continua no vermelho, aos 183.524 pontos, queda de 0,24%, com a Petrobras caindo 2,39%. Os juros futuros, ao contrário, cedem em toda a curva.
Em Nova York, ontem o dia terminou empatado depois de muito susto. O S&P ficou nos 7.704 pontos, a Nasdaq nos 26.939 e o Dow caiu 161 pontos, aos 51.349. Hoje as três sobem de leve, com o Dow em alta de 0,3%.
Mas o juro não para. O de 10 anos bateu 5,22% hoje, o maior nível desde 2007, e o de 30 anos chegou a 5,50%, o maior desde 2004.
Terceiro dia seguido de recorde no juro americano. Quando esse número sobe, sobe tudo que se paga parcelado no mundo inteiro.
A ação que mais chamou atenção foi a Oracle. Chegou a cair 6% no pregão depois que a Bloomberg revelou que a empresa mandou um aviso de "força maior" sobre o Project Jupiter, um data center de inteligência artificial no Novo México. O aviso serve para adiar pagamentos se o projeto não ficar pronto em 2028.
Força maior, em contrato, é terremoto. Enchente. Guerra. A Oracle diz que o projeto segue no cronograma. E mandou a carta mesmo assim.
Igual pedreiro que jura que termina na sexta e já avisa que, se chover, não vem.
Também caiu a MGM, dona de cassinos em Las Vegas, depois que o grupo People Inc. desistiu da proposta de comprar a empresa a US$ 48,30 por ação. E subiu a Nebius, mais de 6%, depois que o Bank of America aumentou a projeção de receita dela até 2028.
O petróleo devolveu parte da alta. Perto do meio-dia o americano está a US$ 92,55, queda de 2,18% no dia, e o Brent ronda os US$ 105. O ouro está perto de US$ 4.300 a onça, praticamente parado.
Na agenda de hoje, falam dois dirigentes do Fed, John Williams, de Nova York, e Thomas Barkin, de Richmond. Depois de uma semana de juro em alta, o mercado vai ouvir cada vírgula.
O que a IA aprontou

Ontem os chefes das maiores empresas de inteligência artificial foram ao Conselho de Segurança da ONU pedir uma coisa rara: regulação.
O Dario Amodei, da Anthropic, disse que a IA, se mal administrada, pode ser um risco "para a humanidade como um todo". O Sam Altman, da OpenAI, disse que as decisões mais importantes não podem ser tomadas só por laboratórios de São Francisco.
A resposta do governo americano veio na mesma sessão. O Michael Kratsios, representante da Casa Branca, disse que os Estados Unidos rejeitam "totalmente" qualquer tentativa de órgão internacional de controlar a IA. França e Reino Unido ficaram do lado da cooperação.
As empresas pedindo fiscal. O governo dispensando.
É o motorista pedindo o bafômetro. E o guarda acenando para seguir.
E apareceu uma ferramenta que resolve um problema muito brasileiro. O Google começou a testar o "Call for Me": o Gemini liga para uma empresa no seu lugar, do seu número, navega o menu do "digite 1", espera na linha, fala com o atendente, e você acompanha a transcrição e assume quando quiser. Serve para reservar restaurante, remarcar horário, saber se a loja tem o produto.
Por enquanto só funciona aqui nos Estados Unidos, só no Pixel 11 e só para quem paga a assinatura do Gemini. Eu não testei. Fica o registro.
A primeira inteligência do mundo que aceita ouvir a musiquinha de espera. Sem reclamar.
Brasil e Estados Unidos

Segundo o Politico, o governo americano está finalizando um plano para proibir a exportação de diesel por 90 dias. A ideia é segurar o preço do combustível aqui antes da eleição de meio de mandato, em novembro. O próprio secretário de Energia, Chris Wright, é contra: diz que não funcionaria e que encareceria a gasolina e o querosene de aviação.
Para o Brasil, a conta é direta. Os Estados Unidos forneceram 68% do diesel que o Brasil importou em julho e agosto. Das encomendas para outubro, cerca de 80% vêm daqui. E outubro é o mês em que o país mais consome diesel, por causa da safra.
O Brasil importa algo como um quarto do diesel que usa.
Do lado de lá, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, disse que o governo deve manter por mais 30 dias o subsídio de R$ 2,12 por litro de diesel. A palavra final é do Lula. O pacote de setembro custa cerca de R$ 7 bilhões por mês.
O Brasil é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. E compra diesel pronto dos Estados Unidos.
Igual quem planta laranja e compra suco de caixinha.
Se você está pensando em mudar

Quem sonha com o H-1B, o visto de trabalho qualificado, precisa entender que agora existem duas taxas de cem mil dólares circulando. E nenhuma das duas está sendo cobrada hoje.
A primeira é a de US$ 100 mil, criada por proclamação presidencial em setembro do ano passado. Ela venceria no dia 21 deste mês, e o presidente prorrogou até setembro de 2027. Mas um tribunal federal de Massachusetts anulou a cobrança em junho, e o USCIS continua proibido de cobrar enquanto o governo recorre.
A segunda é nova: uma taxa de US$ 103.265 para os pedidos de H-1B que entram no sorteio anual. É proposta, não regra. O prazo de comentários públicos terminou ontem. Para valer, o governo ainda precisa publicar a versão final, e já se espera briga na Justiça.
Dois detalhes que importam. Quem paga as duas é o empregador, não o trabalhador. E universidades e instituições de pesquisa sem fins lucrativos ficam fora da taxa nova.
Dois boletos de cem mil dólares para o mesmo visto. Um suspenso pela Justiça. O outro ainda não nasceu.
Eu conto a regra publicada, não oriento o seu caso. Para isso existe advogado de imigração.
O que está bombando

A Seleção empatou com a Austrália por 1 a 1, hoje às 7h de Brasília, em Townsville. Foi o primeiro jogo depois da eliminação para a Noruega na Copa. O gol do empate saiu no último lance: cabeçada do Rayan, a bola bateu no goleiro, bateu no travessão e entrou. Na internet, a torcida já pede o Filipe Luís.
Terça tem Austrália de novo. Depois, a Índia. Alguém na CBF está montando a agenda pela autoestima.
O Mercado Livre começa hoje a vender remédio, inclusive com receita. Antibiótico, caneta de emagrecer, tudo, com a receita analisada por um farmacêutico antes da compra, começando por São Paulo. Ontem as farmácias derreteram na bolsa: Pague Menos caiu 8%, RD Saúde 5,4% e Panvel 4,9%. A associação das grandes redes diz que a venda é ilegal e vai à Anvisa.
A drogaria passou anos pedindo o seu CPF na nota. Agora vai pedir socorro à Anvisa.
E aqui nos Estados Unidos o Starbucks fecha nesta semana cerca de 250 lojas na América do Norte, 1% das 18 mil. É a segunda rodada: no ano passado foram 627. A empresa vai gastar uns US$ 300 milhões com a reestruturação.
Dá mais de um milhão de dólares por loja. Para fechar.
Boa sexta. O remédio já chega pelo aplicativo. O diesel, ninguém sabe.
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O Brasil e os Estados Unidos vistos por quem mora fora. IA, mercado americano e o que a distância deixa ver. Sem enrolação e sem vender curso no meio do texto.
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